Palavra da Presidente

Silvia Rabello

Artigo: O estado de (des)conservação do patrimônio audiovisual brasileiro

Por Silvia Rabello

As sociedades funcionam porque existem valores compartilhados e regras aplicadas em comum, frequentemente expressas em fórmulas escritas, como leis e constituições. Essas, por sua vez, fundamentam-se em valores que, independentemente de estarem ou não expressos nesses textos, constituem sua base, bem como a base de sua aplicação.

As religiões, os sistemas políticos e a jurisprudência são expressões de filosofia. Compreender as teorias, os princípios, os postulados e realidades que influenciam determinada área de trabalho têm, portanto, importância não somente para os profissionais envolvidos, mas também para toda a sociedade.

É óbvia e crescente a importância da mídia audiovisual como parte integrante da memória do mundo.

As rápidas mudanças tecnológicas desafiam velhos postulados à medida que se abrem as chamadas “autopistas de informação”. Os arquivos de “múltiplas mídias” cada vez mais aumentam de número e às vezes substituem os antigos arquivos de filmes, de televisão e de sons gravados, ao mesmo tempo em que diversificam suas formas de organização e prioridades.

Embora os primeiros arquivos audiovisuais tenham surgido há cerca de um século, e se possa dizer que a atividade desenvolveu consciência profissional a partir da década de 1930, seu crescimento com continuidade é essencialmente um fenômeno da segunda metade do século XX. É, portanto, um campo novo, que se desenvolve com rapidez e que possui recursos e competências desigualmente distribuídos pelo planeta.

A visão das gerações pioneiras que estabeleceram os conceitos diferenciados de arquivos de filmes, de televisão e de som enriqueceu-se, modificou-se e foi testada pelo tempo e pelas experiências, pelas tentativas e pelos erros.

O maior desafio é encontrar soluções num ambiente audiovisual profundamente modificado e em constante transformação à medida que avançamos pelo século XXI.

Em muitos países – infelizmente não é nosso caso – já não é mais necessário argumentar que os filmes e registros precisam ser preservados e exigem armazenamento correto e outros cuidados para que tenham sua sobrevivência garantida.

Há uma enorme quantidade de material fílmico perdido ou a ponto de perder-se. Mas todas as obras atualmente produzidas, realizadas nos mais diversos formatos digitais, têm uma existência meramente virtual, sem a possibilidade de exibição em nenhuma grande plataforma atual. Os conteúdos registrados digitalmente, que ainda existem e estão provisoriamente armazenados nos mais variados, precários e inseguros formatos e suportes, também podem rapidamente desaparecer.

Digitalização é a palavra da moda, mas o movimento para a tecnologia digital por parte das organizações da mídia tem um efeito profundo sobre a prática arquivista, as demandas de acesso e o planejamento estratégico. Ao mesmo tempo, coloca o dilema da obsolescência cada vez mais rápida dos formatos, com os arquivos precisando lidar com os mistérios da preservação digital e a necessidade de continuar preservando e atendendo às demandas de acesso aos “formatos tradicionais”, mais antigos.

As cópias de filmes, os discos de vinil e outros suportes anteriormente encarados e administrados como bens de consumo substituíveis e descartáveis começam a ser percebidos como artefatos que exigem abordagens e manuseios muito diferentes.

Existe uma crescente consciência sobre o fato de que a arquivística audiovisual obedece tradicionalmente a uma pauta euro-americana que deu pouca atenção às realidades dos países em desenvolvimento. Instalações, padrões e competências disponíveis no hemisfério norte simplesmente não estão disponíveis no hemisfério sul, onde soluções mais simples, baratas e sustentáveis precisam ser encontradas. Atravessar esse abismo e compartilhar recursos, habilidades e descobertas é atualmente o grande desafio para a preservação e manutenção dos arquivos audiovisuais.

Tive a oportunidade de participar de um curso de gestão de arquivos no BFI-British Film Institute e apesar de ter aprendido muito, terminei o treinamento em profunda depressão. Eles estão tantos anos-luz à nossa frente, em todos os sentidos. Boa parte dos recursos do BFI vêm da Loteria Britânica. Tudo é tão bem planejado, as ações são amplamente discutidas e todo o processo tem uma transparência que permite que a população acompanhe o que é feito. Também, em outro momento, participei de uma missão à Holanda, país que com um orçamento de 150 milhões de euros, em 7 anos restaurou, recuperou e digitalizou toda a produção do país na área de cinema, TV e rádio. Um processo incrível, que possibilitou criar uma expertise que hoje é difundida para outros países. O que são cerca de R$ 73 milhões/ano para preservar a memória audiovisual de um país? Com tantas obras que custaram bilhões aos contribuintes brasileiros?

Em tudo – da política de acesso à possibilidade de mudar a história pela manipulação digital – o arquivo audiovisual enfrenta um leque cada vez maior de dilemas e pressões éticas.

A rede mundial, atualmente o mais importante instrumento de prestação de serviços e de pesquisas, coloca também novas questões relativas à seleção, incorporação e preservação, bem como questões de ordem conceitual e ética.

As novas tecnologias e suas variadas formas de distribuição e acesso criaram novas oportunidades comerciais para velhas imagens e sons. Em contrapartida, temos um aumento na pirataria de imagens e sons.

A discussão, contudo, não tem uma postura distante e fria. Paixão, poder e política são tão inseparáveis da arquivística audiovisual quanto de quaisquer outras disciplinas mais tradicionais. O desejo de proteger a memória coexiste com o desejo de destruí-la. Já foi dito que “ninguém e nenhuma força poderão abolir a memória”. Mas a história mostrou – e nunca mais dramaticamente do que nos últimos 100 anos – que a memória pode ser distorcida e manipulada e que seus suportes são tragicamente vulneráveis à negligência e à destruição proposital.

Em outras palavras: a preservação consciente e objetiva da memória é um ato intrinsecamente político e pleno de valores. Não há poder político sem controle sobre os arquivos e sobre a memória. A democratização concreta sempre poderá ser medida à luz deste critério essencial: o grau de participação na formação dos arquivos, o acesso a eles e a participação em sua interpretação.

Basta que conheçamos o passivo fílmico que temos a restaurar e digitalizar, a situação dos diversos arquivos públicos e cinematecas. De um total estimado de 6.000 títulos produzidos em suporte fílmico, cerca de 2.500 já não mais existem. Da produção estimada de 18.000 curtas-metragens, sobrevivem cerca de 8.000 em suporte fílmico.

Só quem perde somos nós, brasileiros, pois as gerações atuais já não têm como conhecer muitas das imagens que formaram nosso imaginário, simplesmente porque não existem mais.

O dilema digital, que tem provocado tantas discussões pelo mundo, sequer faz parte de nosso pensar.

Deixo aqui o alerta de que o assunto é grave e urgentíssimo.